19/12/2014

Conto de Natal - "A CAMISA" (Sorley Sales)

        Bem galera! Está chegando o Natal e eu quero compartilhar com vocês uma das minhas pequenas histórias de Natal: "A Camisa":


     Os pontos soltos na camisa do garoto tinham se desfeito na manhã daquele dia. A mãe, no entanto, não tinha linha para costurá-los novamente.
– Por que andou pelo arame farpado de novo, Lúcio? – perguntou a mãe, irritada com a atitude desobediente do garoto. – Os nós estão novamente abertos!
      O garoto baixou a cabeça e quase chorou. Os olhos pesando nos rasgões da única camisa com botões faltando. O menino pôs a camisa rasgada na cadeira da cozinha como fazia todas as noites e sem dizer mais uma palavra Lúcio encaminhou-se para o quarto simples e deitou-se nos trapos de algodão e palha que se faziam ser sua cama.
     O dia seguinte amanheceu límpido. Enquanto Lúcio descia as escadas, a mão coçando o peito nu e magro, sua mãe, que preparava o café, lhe gritou:
– Lúcio, por que não disse-me que havia carretel sobrando, que eu mesma faria isso? – ela estava com a camisa do menino nas mãos. Já costurada.
O garoto não soube o que dizer. Vestiu a camisa e boquiaberto admirou os rasgões consertados. Aquela tarde Lúcio chegou em casa. Novamente com a camisa rasgada pelos arames farpados.
– Por que andou pelo arame farpado de novo, Lúcio? – insistiu em perguntar a mãe. O garoto retirou a camisa, pendurou-a na cadeira e subiu para dormir depois do jantar.
O dia seguinte fora a mesma coisa. A camisa do garoto já estava consertada. E a mãe insistia em dizer que fora o moleque quem fizera isso.
Passou-se uma semana a ocorrer a mesma coisa. No sétimo dia, quando Lúcio retornou a casa com a camisa rasgada, ela não se consertou. Então foram um, dois, três, quatro, cinco dias atravessando o arame farpado. No final da semana já não havia mais tecido para ser rasgado. À noite ele dormiu com a camisa com dezenas de rasgões, querendo descobrir se acordaria com ela novinha. Mas não aconteceu o que queria.  Desceu e viu a mãe parada na cozinha, sobressaltada, e lágrimas quentes descendo em seu rosto.
– Mamãe, o que houve? – abraçou a mãe, os olhos também marejados. Agora via. Uma mesa exuberante, com peru suculento, taças limpas com água, maçãs no molho adocicado e saladas. Tudo na mesa. O teto enfeitado com inúmeras bolinhas brilhantes e dezenas de anjinhos de cera, num detalhe azul-esbranquiçado. E ali, sobre a cadeira uma blusa novinha. Costurada com linha branca e lã macia.
– É lindo, filho. É lindo! – a mãe, espantada, começou a arrumar os pratos na mesa.
     O menino Lúcio tirou o que sobrou dos trapos da camisa e vestiu a nova. Com um sorriso no rosto contemplou o dia pela janela. Avistou um homem que olhava por ali. Era alto e tinha um sorriso cintilante. Parecia brilhar.
     Virou o olhar para um quadro de Jesus Cristo na cozinha de sua mãe. Bordado com linha colorida. E num instante ele apercebeu-se de algo divino.
– Vamos filho, é natal! É natal, Lúcio! – a mãe disse com alegria. Sentando-se à mesa.
Ele olhou para a camisa nova e para a janela que já não havia mais o homem e acompanhou a mãe à mesa.
Sim, era natal. O natal mais mágico que já tiveram.

Espero que tenham gostado, e tenham um ótimo Natal!!! Até a próxima! Fui!

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